TRAUMAS VASCULARES

Sumário

O trauma vascular é uma das condições mais desafiadoras na medicina de emergência e cirurgia vascular. Requer um diagnóstico rápido e intervenção adequada para minimizar sequelas funcionais e reduzir a mortalidade. Este artigo revisa os principais aspectos do trauma vascular, incluindo mecanismos de lesão, atendimento inicial, critérios de gravidade e abordagens terapêuticas.

Introdução ao Trauma Vascular

O trauma vascular pode ocorrer devido a ferimentos contusos ou penetrantes. O mecanismo de lesão influencia diretamente o tipo de dano vascular e a abordagem terapêutica. Ferimentos por arma branca geralmente causam lesões lineares com menos destruição tecidual, enquanto ferimentos por arma de fogo podem resultar em cavitação extensa, amplificando os danos vasculares e aumentando a chance de complicações graves.

A epidemiologia do trauma vascular varia entre cenários civis e militares. Em ambientes de conflito, as lesões vasculares são mais comuns devido ao uso de armamentos de alta energia. No ambiente urbano, acidentes automobilísticos, agressões e quedas representam uma parcela significativa dos casos.

"Golden Hour"

A primeira hora após o trauma, conhecida como “Golden Hour”, é crucial para a sobrevida do paciente. A intervenção precoce pode modificar significativamente o prognóstico. O tempo entre o trauma e o tratamento definitivo está diretamente relacionado à taxa de complicações, incluindo a perda de membro e mortalidade.

A abordagem inicial deve seguir o protocolo ATLS (Advanced Trauma Life Support), que enfatiza a avaliação sistemática do paciente. O controle do sangramento é prioritário e pode ser realizado por compressão direta, uso de torniquete em casos selecionados e tamponamento cirúrgico em sangramentos de grandes vasos.

Diagnóstico e Avaliação do Trauma Vascular

    A avaliação clínica é essencial para o diagnóstico do trauma vascular. Os principais sinais incluem:

Sinais maiores:

  • hemorragia ativa
  • hematoma expansivo
  • frêmito sopro no trajeto vascular
  • isquemia aguda do membro (dor, palidez, pulso ausente, parestesia, paralisia, poiquilotermia).

   

Sinais menores:

  • hematoma pequeno e estável
  • lesão em trajeto vascular sem sinais de isquemia
  • fratura ou luxação próxima a vasos principais.

   

Pacientes com sinais maiores devem ser encaminhados imediatamente para cirurgia, enquanto aqueles com sinais menores podem necessitar de exames complementares, como ultrassonografia Doppler, angiotomografia ou arteriografia.

O Índice Tornozelo-Braquial (ITB) é um exame simples que auxilia na avaliação da perfusão distal. Um ITB menor que 0,9 sugere lesão vascular e indica necessidade de investigação adicional.

Tratamento do Trauma Vascular

A conduta depende da estabilidade hemodinâmica do paciente e da gravidade da lesão.

  • Pacientes instáveis: abordagem cirúrgica imediata para controle de sangramento e revascularização, se necessário.
  • Pacientes estáveis: podem ser submetidos a exames de imagem para melhor definição da conduta.

 

Técnicas cirúrgicas incluem:

  • Rafia vascular (sutura primária para lesões pequenas).
  • Anastomose término-terminal (para lesões segmentares sem tensão excessiva).
  • Uso de enxerto de veia safena para reconstrução arterial.
  • Shunt temporário em pacientes instáveis, permitindo revascularização inicial antes da cirurgia definitiva.
  • O tratamento endovascular é uma alternativa minimamente invasiva para algumas lesões vasculares, especialmente em grandes vasos e em locais de acesso cirúrgico complexo, como aorta torácica e subclávia.

Complicações e Prognóstico

As principais complicações do trauma vascular incluem:

  • Fasceíte necrotizante: infecção grave que exige desbridamento cirúrgico imediato.
  • Síndrome do compartimento: edema excessivo que compromete a circulação e pode necessitar de fasciotomia.
  • Linfedema e trombose venosa profunda: podem ocorrer em lesões vasculares associadas a trauma extenso.

 

A taxa de sucesso do tratamento depende da rapidez da intervenção e da gravidade da lesão. O tempo de isquemia prolongado (≥ 6 horas) reduz significativamente a taxa de salvação do membro.

Trauma Vascular Cervical

O trauma vascular cervical representa um dos cenários mais desafiadores na medicina de emergência e cirurgia vascular, dada a complexidade anatômica e a proximidade de estruturas vitais. A abordagem diagnóstica e terapêutica depende da zona afetada e da estabilidade hemodinâmica do paciente.

Epidemiologia

A incidência desse trauma varia entre 5% e 10% de todos os traumas vasculares, sendo mais comum em homens entre 20 e 40 anos. A mortalidade pode chegar a 66%, especialmente quando há lesão da artéria carótida. Aproximadamente 46% das mortes por trauma vascular são atribuídas a lesões cervicais, apesar de representarem apenas 22% dos casos.

Classificação

As lesões são classificadas conforme a localização anatômica, sendo divididas em três zonas:

  • Zona 1: Da clavícula até a cartilagem cricóidea. Inclui a veia subclávia, artéria subclávia e traqueia.
  • Zona 2: Da cartilagem cricóidea até o ângulo da mandíbula. Inclui a veia jugular interna e a artéria carótida.
  • Zona 3: Do ângulo da mandíbula até a base do crânio. Inclui a artéria vertebral e o seio cavernoso.

 

A Zona 2 é a mais acometida, representando 50% a 80% dos casos.

Diagnóstico e Avaliação Inicial

A avaliação segue o protocolo ATLS (Advanced Trauma Life Support), priorizando:  

Avaliação hemodinâmica: pacientes instáveis necessitam de intervenção imediata.

Sinais de alerta para lesão vascular grave:

  • Sangramento externo volumoso
  • Hematoma cervical expansivo
  • Massa pulsátil na região cervical
  • Assimetria de pulsos
  • Disfagia e déficit neurológico

 

Exames de imagem:

  • Ultrassonografia Doppler: Sensibilidade de 91% a 100% para avaliação de traumas venosos.
  • Angiotomografia: Considerada padrão ouro para o diagnóstico de lesões vasculares.
  • Arteriografia: Indicada para traumas contusos e lesões complexas em Zonas 1 e 3.

Tratamento

A abordagem terapêutica varia conforme a estabilidade do paciente e a localização da lesão.

Pacientes instáveis: Requerem laparotomia exploradora imediata ou toracotomia para controle do sangramento.

Pacientes estáveis:

  • Zona 1: Explorada apenas se houver expansão do hematoma.
  • Zona 2: Avaliação por exames de imagem antes de decidir a exploração cirúrgica.
  • Zona 3: Tratamento preferencialmente endovascular devido à dificuldade de acesso.

 

Técnicas cirúrgicas fundamentais incluem:

  • Ligadura venosa: Opção comum para lesões da veia jugular.
  • Anastomose término-terminal: Preferida para lesões arteriais sem grande perda tecidual.
  • Uso de enxerto venoso: Indicado em lesões extensas.
  • Stents endovasculares: Alternativa minimamente invasiva para lesões arteriais em locais de difícil acesso.

Complicações e Prognóstico

As principais complicações incluem:

  • Isquemia cerebral: Associada a lesão da artéria carótida.
  • Síndrome do compartimento: Exige fasciotomia para aliviar a pressão intramuscular.
  • Fístula arteriovenosa e pseudoaneurismas: Podem necessitar de correção cirúrgica ou endovascular.
  • Aumento da pressão intracraniana: Pode resultar de ligadura bilateral das veias jugulares.

Trauma Vascular Torácico

O trauma vascular torácico é uma das principais causas de mortalidade em traumas de alta energia, sendo a lesão da aorta torácica uma das mais letais. A desaceleração brusca e o impacto de alta intensidade são os principais mecanismos de trauma, frequentemente associados a acidentes automobilísticos e quedas de grandes alturas.

Epidemiologia e Fisiopatologia

A aorta torácica está protegida pelo gradil costal, mas sua porção descendente é vulnerável na região do ligamento arterioso, onde ocorre a maioria das lacerações. Estima-se que 30% a 40% das mortes imediatas por trauma torácico estão associadas a lesões na aorta.

Mecanismos de Lesão

    As principais causas do trauma vascular torácico incluem:

  • Desaceleração brusca: O movimento diferencial entre a porção fixa e móvel da aorta pode levar à ruptura.
  • Cisalhamento horizontal: Comum em colisões de alta velocidade e quedas.
  • Fraturas associadas: Fraturas de esterno, escápula e coluna vertebral são marcadores indiretos de lesão aórtica.

Diagnóstico e Exames Complementares

O primeiro exame a ser realizado é a radiografia de tórax, que pode revelar sinais indiretos como:

  • Alargamento do mediastino (> 8 cm)
  • Desvio da traqueia e das estruturas mediastinais
  • Fratura do primeiro arco costal ou clavícula
  • Presença de hemotórax

Caso haja suspeita, deve-se prosseguir com a angiotomografia torácica, padrão ouro para avaliação detalhada da aorta e identificação de lacerações. Outros exames incluem:

  • Ecocardiografia transesofágica: Em pacientes instáveis submetidos a laparotomia exploradora.
  • Arteriografia diagnóstica: Indicada para confirmação de dúvidas diagnósticas.

Classificação das Lesões da Aorta Torácica

As lesões são classificadas em quatro graus conforme a graduação da Society for Vascular Surgery:

  1. Lesão da camada íntima
  2. Hematoma intramural
  3. Pseudoaneurisma
  4. Ruptura completa

Tratamento

A abordagem depende da estabilidade do paciente e do grau da lesão:

  • Grau 1 e 2: Tratamento conservador com controle rigoroso da pressão arterial (betabloqueadores) e monitorização seriada.
  • Grau 3 e 4: Indicação cirúrgica ou endovascular imediata.

Modalidades Cirúrgicas

Cirurgia Aberta

Requer toracotomia com clampeamento da aorta e reparo da lesão, apresentando maior risco de complicações.

Tratamento Endovascular (TEVAR)

Desde 2005, o tratamento endovascular tornou-se a opção preferida, oferecendo menor morbidade e tempo de internação reduzido. Procedimentos envolvem:

  • Acesso femoral para implante de endoprótese
  • Arteriografia diagnóstica intraoperatória
  • Atenção à cobertura da artéria subclávia esquerda, quando necessário

Condutas em Pacientes Instáveis

Pacientes com ruptura aórtica e instabilidade podem necessitar de laparotomia exploradora antes da correção vascular definitiva. A maioria dessas lesões chega ao hospital com um pseudoaneurisma tamponado, permitindo tempo para otimização clínica antes da intervenção.

Trauma Vascular Abdominal

O trauma vascular abdominal é uma condição grave que exige uma abordagem rápida e precisa para evitar complicações fatais. A classificação correta do tipo de trauma e a identificação das estruturas envolvidas são essenciais para definir a melhor conduta terapêutica.

Classificação

O trauma vascular abdominal pode ser dividido em:

  • Trauma penetrante: Lesão direta por arma de fogo ou arma branca, com maior probabilidade de acometer vasos principais.
  • Trauma contuso: Comum em acidentes automobilísticos e quedas, geralmente associado a laceração do mesentério e órgãos sólidos como fígado, baço e rins.

  

A localização da lesão influencia diretamente a conduta cirúrgica e o prognóstico do paciente.

Diagnóstico e Avaliação Inicial

O atendimento segue o protocolo ATLS (Advanced Trauma Life Support), priorizando:

  1. Avaliação hemodinâmica: Pacientes instáveis com suspeita de hemorragia intraperitoneal requerem intervenção cirúrgica imediata.
  2. Identificação do local do sangramento:

 

Sangramento livre para a cavidade peritoneal está associado a choque hipovolêmico severo.

Hematomas retroperitoneais podem ser inicialmente contidos, permitindo uma abordagem mais controlada.

Exames de imagem:

  • Ultrassonografia FAST é o exame inicial para detectar líquido livre na cavidade abdominal.
  • A angiotomografia auxilia na localização e extensão das lesões vasculares em pacientes estáveis.

Classificação do Trauma Retroperitoneal

O retroperitônio é dividido em três zonas anatômicas para orientar a abordagem cirúrgica:

  • Zona 1 (central): Inclui a aorta abdominal, veia cava inferior e vasos   mesentéricos. Deve ser sempre explorada em trauma contuso.
  • Zona 2 (lateral): Abrange os vasos renais. Exploração é indicada apenas se houver expansão do hematoma ou instabilidade.
  • Zona 3 (pélvica): Relacionada aos vasos ilíacos. A exploração é evitada sempre que possível, a menos que haja hematoma expansivo.

Tratamento e Condutas Cirúrgicas

A escolha do tratamento depende do tipo de lesão e da estabilidade do paciente:

Pacientes instáveis: Requerem laparotomia exploradora imediata com controle do sangramento por compressão, tamponamento e abordagem definitiva.

Pacientes estáveis:

  • Trauma contuso na zona 1: Indica exploração cirúrgica.
  • Trauma contuso na zona 2: Pode ser tratado conservadoramente se o hematoma estiver contido.
  • Trauma contuso na zona 3: Evita-se a exploração cirúrgica, salvo em casos de Trauma penetrante em qualquer zona: Sempre requer exploração cirúrgica.

 

Manobras cirúrgicas fundamentais:

  • Manobra de Mattox: Rotaciona medialmente o cólon esquerdo para expor a aorta abdominal.
  • Manobra de Cattell-Braasch: Rotaciona medialmente o cólon direito para acesso à veia cava inferior.
  • Manobra de Kocher: Libera o duodeno para expor a aorta suprarrenal.
  • Manobra de Pringle: Controla sangramento hepático por compressão do pedículo hepático.

Lesões Vasculares Específicas

Algumas lesões vasculares abdominais exigem estratégias específicas:

  • Artéria mesentérica superior: Deve ser prioritariamente reparada para evitar isquemia intestinal. Lesões ostiais podem ser ligadas.
  • Artérias renais: Devem ser reparadas sempre que possível devido ao tempo limitado de isquemia renal (≤ 6 horas).
  • Tronco celíaco e artéria hepática: Possuem extensa rede colateral, permitindo ligadura em alguns casos.
  • Veia cava inferior: A tentativa de reparo é prioritária, mas em casos de choque prolongado, pode ser ligada.
  • Vasos ilíacos: Lesões graves podem necessitar de bypass vascular.

Trauma de Pelve e Abordagem Endovascular

O trauma pélvico pode resultar em hemorragia grave, sendo essencial diferenciar entre lesão arterial e venosa.

Trauma penetrante de pelve: Indica laparotomia exploradora e controle imediato do sangramento.

Trauma contuso de pelve: Sangramento geralmente venoso, associado a fraturas pélvicas. O manejo inclui:

  • Estabilização inicial com fixador externo.
  • Angiografia com embolização em casos de sangramento arterial.
  • Uso de REBOA (Resuscitative Endovascular Balloon Occlusion of the Aorta) para controle temporário do sangramento.
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