A tromboangeíte obliterante (TAO), também conhecida como doença de Buerger, é uma condição inflamatória rara que afeta os vasos sanguíneos pequenos e médios dos braços e pernas. Diferente da aterosclerose, ela não envolve o acúmulo de placas, mas sim a formação de coágulos que bloqueiam a circulação, preservando em grande parte as paredes dos vasos. Acomete principalmente homens jovens, tabagistas inveterados, e está fortemente associada ao uso do tabaco.
O tabaco desempenha um papel fundamental no surgimento e na progressão da tromboangeíte obliterante (TAO). Até o momento, não há registros confiáveis da doença em pessoas que nunca tenham consumido tabaco ou cannabis, com essa informação sendo confirmada por exames de urina para nicotina ou cotinina e testes toxicológicos.
Embora o tabagismo seja um fator central no surgimento, na progressão e na recorrência da TAO, seu papel exato na doença ainda não está totalmente esclarecido. Algumas teorias sugerem que o fumo pode desencadear uma resposta imune tardia ou causar danos tóxicos aos vasos sanguíneos.
Diferente de outras formas de vasculite, a TAO se caracteriza pela formação de um trombo inflamatório rico em células que bloqueia o fluxo sanguíneo, mas preserva em grande parte as paredes dos vasos sanguíneos, especialmente a lâmina elástica interna.
A TAO evolui em três estágios distintos:
Os primeiros sinais da TAO podem ser sutis, mas tornam-se progressivamente debilitantes. Um dos sintomas precoces mais característicos é a tromboflebite superficial migratória, na qual surgem nódulos dolorosos ao longo das veias superficiais. Essa condição pode preceder sintomas mais graves, como dor intensa nos membros ou isquemia digital. Quando presentes, essas lesões devem ser biopsiadas, pois frequentemente revelam a fase inflamatória aguda da doença.
Outro sinal precoce comum é a sensibilidade ao frio, frequentemente associada ao fenômeno de Raynaud secundário, que ocorre em até 40% dos pacientes. Essa hipersensibilidade pode ser explicada por uma atividade nervosa simpática exacerbada nos músculos ou pela redução do fluxo sanguíneo devido à oclusão arterial.
À medida que a TAO avança, a isquemia digital torna-se a manifestação mais frequente. Os pacientes relatam dor intensa e observam uma mudança na coloração dos dedos, que podem ficar avermelhados (rubor) ou azulados (cianose), um achado conhecido como “cor de Buerger”. Em casos avançados, a isquemia pode levar à formação de úlceras e, eventualmente, à gangrena, tornando necessária a amputação.
A extensão da doença costuma envolver mais de um membro. Estudos indicam que a TAO raramente afeta um único membro isoladamente, sendo que:
Com a progressão, artérias maiores podem ser comprometidas, levando a sintomas como claudicação (dor ao caminhar), que pode ser confundida com problemas ortopédicos. Embora o acometimento de grandes artérias seja raro, a oclusão dos vasos maiores nunca ocorre sem o envolvimento prévio dos vasos menores.
Além dos membros, há relatos de comprometimento de outros órgãos, como coração, cérebro, rins e intestino, mas esses casos são incomuns. O envolvimento de artérias como a aorta e as ilíacas é extremamente raro e geralmente indica aterosclerose associada à TAO.
A identificação da TAO é essencialmente clínica, baseada no histórico do paciente e nas manifestações típicas da doença. No entanto, como várias outras condições podem apresentar sintomas semelhantes, exames complementares são necessários para excluir outras causas de doença vascular.
Os testes vasculares incluem:
A TAO deve ser diferenciada de outras doenças vasculares, como:
O diagnóstico da tromboangeíte obliterante (TAO), ou doença de Buerger, é essencialmente clínico, baseado na exclusão de outras causas de oclusão arterial e na presença de manifestações típicas. Diversos critérios foram propostos para ajudar na identificação da doença, sendo os Critérios de Shionoya um dos mais aceitos devido à sua simplicidade e confiabilidade.
Shionoya estabeleceu cinco critérios principais para o diagnóstico da TAO. Para que a doença seja confirmada, todos os cinco critérios devem estar presentes:
O diagnóstico de TAO é um diagnóstico de exclusão, e outras causas de doença vascular devem ser descartadas.
A diabetes mellitus, doenças vasculares autoimunes (como lúpus e esclerodermia) e estados de hipercoagulabilidade devem ser eliminados como possíveis causas.
Oclusões Segmentares (“Lesões em Salto”)
Formação de Vasos Colaterais Tortuosos (“Colaterais em Saca-rolhas”)
Comprometimento Preferencial de Artérias Distais
Ausência de Características de Aterosclerose
A cessação do tabagismo é a principal medida terapêutica. Outras opções incluem:
A principal justificativa para esse procedimento na TAO é que a inervação simpática provoca vasoconstrição intensa nas artérias já comprometidas, piorando a isquemia distal. Ao interromper os nervos simpáticos, espera-se uma redução da vasoconstrição reflexa e um aumento do fluxo sanguíneo para os tecidos
A simpatectomia na doença de Buerger (TAO) é um tratamento paliativo, indicado para controle da dor isquêmica intensa e úlceras crônicas não cicatrizantes. O procedimento pode melhorar temporariamente a circulação distal e aliviar a dor, mas seus efeitos são variáveis e muitas vezes transitórios.
Neuropatia Autonômica Diabética
Muitos pacientes diabéticos já apresentam disfunção do sistema nervoso autônomo, incluindo redução da atividade simpática basal. Isso significa que, nesses casos, a simpatectomia pode ter pouco ou nenhum efeito adicional sobre o fluxo sanguíneo.